O grupo de opositores à actual direcção do Sporting, entre os quais se destacam o ex-presidente Dias da Cunha, a ex-dirigente Isabel Trigo de Mira e Paulo Pereira Cristóvão, vai anunciar, segunda-feira, o nome do candidato à presidência do clube e Paulo Cristóvão, antigo inspector da Polícia Judiciária (PJ), é uma das hipóteses mais fortes. Em declarações exclusivas ao PÚBLICO Cristóvão garantiu que, caso venha a assumir-se como candidato, só não irá a escrutínio se, entretanto, vier a ser condenado no caso “Leonor Cipriano”, onde tem estado a ser julgado, juntamente com outros quatro polícias, pela alegada prática de agressões à mulher já condenada por ter assassinado a filha menor.
“Só desistiria da candidatura à presidência do Sporting caso, no dia 22 de Maio, no Algarve, viesse a ser condenado no caso da Leonor Cipriano. Entendo que no Sporting não deverá existir um presidente condenado por qualquer processo. Isto, apesar de estar convicto que tanto eu como os meus colegas [da PJ] não seremos condenados por um crime que não cometemos”, disse Paulo Pereira Cristóvão.
Esclarecido este ponto prévio, Paulo Cristóvão passou ao ataque. “O Sporting tem sido governado, nos últimos 12 anos, pelas mesmas pessoas, que apenas vão mudando de posição, que saltam de tacho em tacho. Eu e o grupo de pessoas que integram o projecto, entendemos que é altura de se acabar com a monarquia, onde apenas falta saber quem é o príncipe herdeiro. O Sporting precisa de um presidente que ruja para fora e não de um presidente, como Soares Franco, que só ruge para dentro e para fora... mia”, avançou.
Menos sócios pagantes que o V. Guimarães
Sócio do clube há 35 anos, Paulo Cristóvão quer “acabar com a versão ‘roquetista’ [a linha de gestão preconizada por José Roquette] onde “o accionista é mais valorizado que o sócio”. “Não posso admitir que se continue a gerir o Sporting como tem acontecido nos últimos anos, ao ponto de actualmente o clube ter apenas 22.500 sócios pagantes, num universo de mais de 90 mil inscritos, tornando-o mais pequeno que, por exemplo, o Vitória de Guimarães, onde os sócios com quotas em dia são mais de 31 mil”, adianta o mesmo candidato.
Paulo Cristóvão entende que “cerca de 70 por cento dos sócios se distanciaram por não concordarem com o modelo de gestão, ou foram empurrados para fora do clube”. E dá um exemplo do que considera ser uma governação “errada”: “Como é que é possível, a um mês das eleições, vir rasgar contratos [a direcção do Sporting rompeu com a Sagres, assumindo um compromisso com a cervejeira rival, a Super Bock]? Parece a direcção de Vale e Azevedo [antigo presidente do Benfica]. Caso a actual direcção não ganhe as eleições, com que legitimidade se vai pedir ao futuro elenco que pague uma eventual indemnização neste caso? E, já agora, pergunto com que legitimidade é que a direcção paga prémios de 60 mil euros a uma funcionária encarregue de assinar contratos, tendo como base o dinheiro que se ganha no caso de a equipa de futebol passar à fase de grupo da Liga dos Campeões”. “O Sporting, antes de andar a rasgar contratos, deve antes preocupar-se em voltar a ganhar peso institucional, como fez o Benfica, para a partir daí voltar a negociar do modo que entenda ser o mais proveitoso”, disse ainda o antigo inspector da PJ reportando-se à recente quebra (unilateral) do contrato com a Sagres.
“Dois campeonatos, dois azares”
“O Sporting teve dois grandes azares nos últimos anos: foi ter ganho dois campeonatos de futebol. É que os sócios, iludidos com essas conquistas, disseram amén a tudo o que a direcção lhes foi sugerindo, sem pesarem os efectivos benefícios e prejuízos”, adiantou o candidato à presidência leonina.
Paulo Cristóvão diz que os actuais 240 milhões de euros de passivo do clube se devem, sobretudo, à governação que tem sido permitida a esta direcção e a outras compostas, basicamente, pelas mesmas pessoas. “O Cristiano Ronaldo foi vendido por 18 milhões de euros, um valor muito abaixo do que realmente valia. Agora querem vender a Academia por 21 milhões. É, claramente, um mau negócio. Não é altura de vender a Academia que, alterado o Plano de Pormenor de Alcochete, devido à futura construção do aeroporto, irá valer muito mais que isso. A Academia não deverá ser o novo Cristiano do sector imobiliário”.
O mais que provável candidato à presidência diz ainda que a actual estrutura do Sporting é composta por 18 empresas, a maior parte delas ligadas ao sector imobiliário. Esta é uma estratégia que, salienta, “não funciona”. “Se fosse boa, esse mesmo conjunto, esse monstro de 18 empresas, não seria responsável pelo avolumar, ano a ano, de um passivo que já vai em 240 milhões de euros”.
“Não quero que o Sporting tenha menos de 60 por cento na SAD. Isso será sempre muito arriscado, porque com uma posição de apenas 50,5 por cento, há sempre as acções B, que de um momento para o outro podem ser negociadas e fazer perder a hegemonia”.
Para o futuro, Paulo Cristóvão pretende que o presidente do Sporting venha a ser “profissional e remunerado”. “Tem de passar a existir [no Sporting] a cultura do mérito, onde o reconhecimento pelo trabalho das pessoas deverá ser compensado monetariamente. É assim que acontece, por exemplo, no Futebol Clube do Porto. No Sporting não podem continuar a fazer-se jantaradas, como a última, em que se diz que é de apoio a Soares Franco mas onde, na realidade, só se vislumbraram credores e outros interessados em vir a assumir negócios”, afirmou.