Concorda que esta foi a época em que o 4x3x3 se consagrou como um sistema táctico ganhador?
A época europeia consagrou um sistema que eu há algum tempo venho dizendo (e desculpem a imodéstia) que é o mais eficaz e o mais capaz de conduzir a resultados. Na minha perspectiva, o 4x3x3 nunca poderá ter dois médios de contenção e, na frente, não tem necessariamente de ter dois alas, mas sim três avançados de muita mobilidade e capacidade física.
E é isso que acaba por distinguir, de alguma forma, o FC Porto...
De alguma forma, é. E foi isso que o ajudou a projectar esta época para patamares bons.
O futebol portista assente em transições rápidas seria impraticável sem a simplicidade de processos e velocidade de execução de Raul Meireles?
É a complementaridade dos seus médios que permite ao FC Porto tirar partido das transições rápidas quando o momento o aconselha. Estamos a falar em termos ofensivos, porque também é importante a capacidade de uma equipa se reagrupar. Transição é o momento que se segue a cada perca ou recuperação de bola. Esse momento exige aos jogadores decisões rápidas e seguras. No caso concreto do FC Porto, a transição ofensiva rápida depende sempre do momento, do tempo e do espaço que os jogadores têm. Não faz sentido dizer que o FC Porto baseia o seu processo ofensivo nas transições rápidas. Porque há momentos em que isso não pode acontecer.
Mas concorda que o futebol portista tornou-se mais versátil a partir do momento em que conseguiu misturar as transições ofensivas rápidas com maior controlo e circulação da bola?
Claro que sim.
Maicon, Nuno André Coelho, Miguel Lopes e Orlando Sá podem vir a ser mais-valias?
Têm condições para isso. Vai depender deles e da forma como a equipa evolua ao longo da época.
O central Angeleri sofreu uma lesão grave. Continua a interessar ao FC Porto?
Nunca foi indicado para o FC Porto.
Espera mais reforços?
A nossa preocupação é avaliar bem o rendimento dos nossos jogadores e avaliar as pesquisas que foram feitas. Importa depois avaliar bem o mercado e as oportunidades que surgem de negócio e avaliar também o mercado que eventualmente venha a provocar saídas de jogadores. Por isso, tudo o que se diga agora é pura especulação.
Você disse que em Portugal se fala em demasia de arbitragem e que se devia era discutir os verdadeiros problemas do futebol português. Quais são e o que se devia?
São inúmeros. Posso levantá-los, mas não tenho condições para os resolver. Grande parte tem a ver com a estruturação da arbitragem, com a credibilidade, habilitações e a formação que é dada aos árbitros.
A arbitragem é um dos principais problemas do nosso futebol?
É verdade. A forma como o negócio é tratado e conduzido quer pela Federação quer pela Liga tem de ser revisto. Mas também não se admite ter uma liga tão pobre e em que não cumprem as regras. Se os regulamentos não são correctos e não tornam o negócio rentável e credível é preciso alterá-los. Não faz é sentido passar a vida a dizer mal.
Como observa o que se passou no Estrela da Amadora?
Vejo-o dentro do quadro negativo que referi atrás. Isso credibiliza a liga profissional? Não, pois não? As pessoas deviam interrogar-se se o futebol português tem mercado para ter duas ligas profissionais.
Qual é a sua opinião?
Não tem. Se não tem, a Liga tem de procurar uma forma que sirva a criação de uma liga profissional forte, segura, rentável e, acima de tudo, que permita a evolução do jogo. Ou seja, melhores jogadores, melhores treinadores, melhores árbitros, melhores receitas, melhor imprensa... Acho piada quando toda a gente fala na liga inglesa. Porque aí o que chama a atenção é o espectáculo. E eu pergunto: todos os campos portugueses têm capacidade para proporcionar espectáculos como os ingleses? As horas a que se joga em Portugal e as transmissões televisivas permitem aqueles espectáculos que vemos em Inglaterra? A forma como os jogos decorrem em Inglaterra, sem grandes questões, é comparável com o que se passa cá? Não se podem comparar dois mercados tão diferentes. Primeiro temos de ver o que permite o nosso mercado. E quem tem de o fazer são os dirigentes. Eles é que têm de tomar decisões.
O Benfica fez um comunicado a dizer que foi prejudicado em 16 pontos. Acha que o FC Porto foi beneficiado?
Não. Foi tão prejudicado e tão beneficiado como o Benfica e o Sporting. Imagine que o FC Porto amanhã faz um comunicado a dizer que foi prejudicado em X pontos. E depois? O comunicado do Benfica diz em quantos pontos foi beneficiado?
Qual é a sua opinião sobre os árbitros portugueses?
A minha opinião é que eles, a partir de determinada altura da época, não tinham condições para apitar e tinham de cometer erros.
Porquê?
Porque a polémica foi de tal forma que era impossível alguém ter estabilidade emocional para dirigir um jogo.
Já pensou o que vai fazer dentro de dois anos. Pensa continuar a treinar?
Ainda nem comecei estes dois anos de contrato... Não faço a mínima ideia.
Mas gostava, nessa altura, de treinar a selecção?
Nessa altura, quando terminar o contrato, irei pensar no que me apetece fazer. Há uma coisa que sei: só vou treinar enquanto sentir condições mentais e físicas para estar no campo, que é onde gosto de estar. Eu gosto de ser treinador, de lidar todos os dias com os jogadores, com o treino e a competição. Foi assim que eu fiz a minha toda e, enquanto tiver condições, é o que pretendo continuar a fazer. Quando sentir que não tenho essas condições, abandono e irei fazer outras coisas. Posso ir fazer o que vocês fazem, que é uma coisa porreira... estar do lado de cá a dar “bitaites”, sem nenhuma responsabilidade. É óptimo.