Cristiano Ronaldo não fez nada. O Real Madrid fez tudo por ele. Colocou-lhe nas mãos um contrato milionário, apresentou-o a Alfredo Di Stéfano, fez com que a sua apresentação tivesse mais testemunhas do que a de Maradona no San Paolo de Nápoles, a 5 de Julho de 1984. Foi memorável, digno de um rei.
Quando o estádio Santiago Bernabéu tremeu, Cristiano Ronaldo tremeu com ele. Avançou pela passerelle, arrastou consigo dezenas de fotógrafos, que se atropelaram, e parou no púlpito, onde ficou inerte durante longos segundos. Parecia ter congelado. A legião de fãs fervia. Durante o curto discurso ao seu povo, Cristiano Ronaldo sentiu o peso do Real Madrid – quem não sentiu? Agarrou na perneira dos calções, como um miúdo que se estreia nas escolinhas, e foi simplesmente uma pessoa normal que se vê transformada no ídolo da maior multidão do mundo do futebol, no fim de tarde mais democrático do mundo.
“Boa noite”. Pausa para o estádio digerir. “Tinha dito aos meus amigos que ia ser natural”. Nova pausa estrondosa. “Estou muito feliz por estar aqui, está cumprido o meu sonho de criança”. O estádio vem abaixo. “Vou contar até três e dizemos todos 'Hala Madrid’”. E assim foi.
Escreveu-se história. Mais tarde, durante a primeira conferência de imprensa de Cristiano Ronaldo num estádio que nunca tinha pisado, o argentino Jorge Valdano, companheiro de Maradona noutros tempos, disse isto: “Tem 24 anos, tem muito caminho pela frente e não há nenhum adjectivo que não possa conseguir”. Ninguém o teria dito melhor.
Cristiano Ronaldo acabara de apresentar-se brilhante, como um cavaleiro andante vestido de branco como um anjo protector – com o número nove às costas, o número que já foi de Morientes, de Zamorano, de Di Stéfano, de Suker, de Hugo Sanchez.
Na véspera, em Barcelona, o toureiro José Tomás cortara cinco orelhas a seis touros entre “chicuelinas”, “cordobesas” e “delantales”. Graças à arte de jogar futebol, Cristiano Ronaldo juntou cerca de 85 mil fãs. Graças à arte de driblar de rematar, Cristiano Ronaldo ganhou uma cláusula de rescisão com nove zeros à direita. Ganhou também a responsabilidade do tamanho de um Santiago Bernabéu, do tamanho da Champions, que escapa ao Real Madrid há sete anos.
“Há algo de anormal nisto”, comentou um dia Platini, referindo-se ao pecado dos milhões. Hoje, tudo pareceu perfeito – inclusive a bárbara invasão da arena, que acompanhou o hino madridista. O futuro é de Cristiano Ronaldo.