Talvez uma metáfora automobilística sirva para explicar o que hoje se passou no Estádio da Luz, onde o Benfica aplicou ao Vitória de Setúbal a maior goleada dos últimos 15 anos (16 épocas) na Liga portuguesa (8-1). De um lado, esteve um superdesportivo novinho em folha, com um motor a todo o gás. Do outro, um carro velho, remendado com muitas peças. A força do Benfica e as fraquezas do Setúbal justificam o resultado desnivelado, num jogo que teve tantos golos como toda a primeira jornada.
Jorge Jesus costuma dizer que há 20 anos, quando orientava o Amora, já as suas equipas marcavam à zona nos lances de bola parada. Carlos Azenha, que foi adjunto do técnico do Benfica em Setúbal (2001/02), também é defensor desta teoria. Só que para ser boa, esta opção tem de ser bem executada. E o Vitória de Setúbal mostrou esta noite o que não se deve fazer neste tipo de lances. Foi por aí que começou a derrocada sadina na Luz.
A resistência da equipa setubalense à avalancha ofensiva do Benfica durou apenas 16 minutos. Foi nessa altura que um canto de Aimar parou na cabeça de Javi García, que se estreou a marcar na Liga portuguesa. O Benfica, que já tinha marcado de cabeça na sequência de livres frente a Marítimo e V. Guimarães, voltava a mostrar muita competência nas bolas paradas.
E os minutos seguintes dariam ainda mais razão a esta análise. Aos 21’, Aimar marcou um livre na esquerda e Luisão desviou para dentro da baliza. E aos 29’, Cardozo deu expressão à máxima “à terceira é de vez”. Depois de dois penáltis falhados nas duas primeiras jornadas, o paraguaio repetiu o que tinha feito frente ao Vorskla e acertou da marca de 11 metros (29’).
O penálti de Cardozo significou também que os primeiros cinco golos do Benfica na Liga 2009/10 foram todos de bola parada, algo que deve servir de aviso aos adversários.
O V. Setúbal que esteve na Luz foi um adversário macio, inexperiente e a quem nem a táctica ultra-defensiva valeu. A qualidade técnica e o ritmo alto dos jogadores do Benfica despedaçaram os sadinos.
O quarto golo, marcado por Aimar (35’), acaba por ser uma boa síntese do encontro, um misto de demonstração da qualidade do Benfica e da fraqueza do Setúbal. O argentino recuperou a bola perto da área, passou-a por cima de um adversário e bateu facilmente Mário Felgueiras. Dois minutos depois, foi Ramires a fazer o segundo golo na Liga.
Na segunda parte, nada mudou e o Benfica foi engrossando a goleada. Um canto de Di María permitiu a Cardozo voltar a marcar, depois de um toque de cabeça de Javi García (66’). E o paraguaio ainda foi a tempo de se tornar o primeiro a realizar um hat-trick neste campeonato, ao completar um cruzamento de Di María (75’). Nuno Gomes saiu do banco para deixar a sua marca (fez o 8-0 de cabeça), num jogo em que o Setúbal ainda conseguiu o golo de honra, com Hélder Barbosa, nos descontos, a aproveitar uma distracção de David Luiz e Quim.
O Benfica ficou perto de repetir a maior goleada de sempre aos sadinos (9-0 em 1954-55) e voltou a ganhar por sete golos, algo que não acontecia desde os 7-0 ao Paços de Ferreira em 2002/03, e a marcar oito vezes no mesmo jogo, o que não acontecia desde os 8-0 ao Famalicão em 1993/94.
Positivo
Cardozo
Fez o primeiro hat-trick da Liga. O paraguaio ultrapassou o trauma dos penáltis e é um dos responsáveis pelo facto de o Benfica ter actualmente o melhor ataque da prova.
Ramires
Vai ser um jogador importante neste Benfica. Corre muito, marca, cruza. Faz tudo e quase sempre bem. E teve boa companhia, de Javi García, Di María, Pablo Aimar e até Rúben Amorim.
Negativo
Vitória de Setúbal
É certo que é uma equipa em reconstrução e quase sem recursos financeiros, mas também é verdade que precisa de melhorar muito para aspirar a ficar na Liga.
Ficha de jogo
Benfica, 8
V. Setúbal, 1
Jogo no Estádio da Luz, em Lisboa.
Assistência 40. 915 espectadores.
Benfica Quim 6, Rúben Amorim 7, Luisão 7, David Luiz 7, Schaffer 5 (César Peixoto 6, 63’), Javi Garcia 7, Ramires 7, Di Maria 7 (Nuno Gomes 6, 77’), Aimar 7 (Fábio Coentrão 6, 63’), Saviola 7 e Cardozo 8.
V. Setúbal Mário Felgueiras 5, Bruno Monteiro 4 (L. Carlos 5, 46’) Sandro 4, Djikiné 4, Zaravi 4, Rúben Lima 4, Álvaro 4, Lourenço 4 (V. Varão -, 72’) Kazmierczak 4, H. Barbosa 5 e Keita 4 (Adul 4, 61’).
Árbitro Duarte Gomes 6, de Lisboa.
Amarelos Rúben Lima (15’), Lourenço (17’), Bruno Monteiro (19’), Keita (26), Rúben Amorim (60’), Álvaro (62’) e Vasco Varão (88’).
Golos 1-0, por Javi Garcia, aos 16’; 2-0, por Luisão, aos 21’; 3-0, por Cardozo, aos 29’; 4-0, por Pablo Aimar, aos 35’; 5-0, por Ramires, aos 37’; 6-0, por Cardozo, aos 65’; 7-0, por Cardozo, aos 75’; 8-0, por Nuno Gomes, aos 85’ e 8-1, por Hélder Barbosa, aos 90+2’.
Notícia actualizada às 23h51