Ontem, em Budapeste, traiu-se a memória do goleador Ferenc Puskás, o “major galopante” da selecção húngara dos anos de 1950, com um jogo em que o futebol foi fraco e os avançados ficaram em branco. Teve de ser um defesa, Pepe, a resolver a partida, para benefício da selecção portuguesa. Carlos Queiroz somou os três pontos, subiu ao terceiro posto do grupo, mas continua a depender de terceiros.
O técnico português apostou de início em Liedson, tirando Simão, que fora titular quatro dias antes, na Dinamarca. Mas nem precisou do “Levezinho” para ver resolvido aquele que tinha sido o grande problema de Portugal no jogo de Copenhaga, a falta de pontaria. Com os nórdicos, foi preciso rematar mais de 30 vezes para conseguir um golo. Na Hungria, a bola entrou, à primeira tentativa junto da baliza de Babos.
Foi na sequência de um livre cobrado por Deco, aos 10’, que Pepe cabeceou para aquele que seria o único golo da partida. O central foi mais rápido na área contrária e pôs cedo Portugal na frente do marcador.
Figo e Couto na bancada
Era a melhor maneira de estrear a camisola branca e o calção vermelho, combinação com a qual Portugal nunca tinha jogado. Era a melhor saudação para Figo e Fernando Couto, que foram a Budapeste apoiar a selecção. Era a melhor maneira de descobrir nas bancadas, o secretário de Estado do Desporto, Laurentino Dias, que acabou a partida a agitar a bandeira portuguesa em sinal de triunfo.
Só dez minutos depois do golo é que o ataque luso voltou a dar sinal de vida porque, com o apoio do público, os anfitriões partiram para a reacção. Entre os minutos 17 e 20, tiveram três situações (uma das quais mostrou à saciedade que Duda não é solução para defesa-esquerdo) em que rondaram como abutres a baliza de Eduardo. Porém, era notória a dificuldade da formação magiar em construir jogo e tudo o que parecia ameaça para Portugal tinha início em jogadas de bola parada. Um bom exemplo disso foi o remate de Dzsudzsák, na cobrança de um livre que assustou a equipa portuguesa. Poucos segundos volvidos, Queiroz, que não parava quieto no banco, já estava sem casaco, acenando instruções em camisa branca.
Com Liedson perdido entre duas torres húngaras, Gyepes (1,91m) e Juhász (1,93), apareceu então Ronaldo, num remate a que Babos se teve de opôr para evitar o segundo. O jogo não era bonito de nenhum dos lados, mas ficava a sensação que a Hungria era um conjunto simpático (e apenas isso) e que Portugal controlava o adversário, sem, porém, dominar.
Sai Deco entra Simão
Nos minutos iniciais da segunda parte, Queiroz perdeu Deco (lesionado), e chamou Simão. Antevia-se que o ataque português sofresse, mas a estratégia da equipa lusa, nesse período, era tentar guardar a bola cá atrás, como que a chamar o adversário, na tentativa de abrir espaços. Só que os pupilos de Erwin Koeman estavam tão imóveis quanto a colecção de pedras tumulares que preenchem o Lapidarium do Museu Nacional da Hungria.
O público ia-se entretendo como podia, perante uma Hungria que queria mandar sem ter autoridade e uma equipa visitante que consentia algumas veleidades e que se mostrava mais lenta, menos interessada no ataque do que no jogo com a Dinamarca. Futebol aborrecido, longe do jogo de emoções que Queiroz prometera na véspera do encontro, e que só foi interrompido nos últimos 25 minutos. O que coincidiu com a entrada de Priskin e Hajnal, dois jogadores que trouxeram nova vivacidade ao ataque húngaro.
Serviços mínimos... suficientes
No último quarto de hora, tocou o despertador. Do lado português, Ronaldo (76’) obrigou Babos a aplicar-se novamente e Nani (rendeu Liedson aos 82’ e quase marcava logo a seguir) atirou ao lado. Antes, porém, foi Bodnár, num livre, bem longe da baliza, a obrigar Eduardo à única defesa da noite. O guardião opôs-se com os joelhos ao golo do empate e de joelhos estava a alma portuguesa. No pequeno sector onde estavam os adeptos lusos, os corações iam mirrando de preocupação. Queiroz tinha prometido emoção? Cumpriu. A selecção também, com o serviço mínimo.
Positivo
Raul Meireles
Esteve seguro nas tarefas defensivas, acutilante no passe, inteligente nas marcações.
Público
Apesar do segundo lugar no grupo – perdido ontem – os húngaros não acreditam muito nas capacidades da sua selecção. Porém, preencheram 42 mil lugares no estádio e, mesmo a perder desde cedo, raramente se calaram.
Negativo
Cristiano Ronaldo
Onde quer que jogue, continua a ser um Cristo por via das marcações cerradíssimas de que é alvo. E, por alguma razão que ele próprio deveria reflectir sobre ela, os árbitros tendem a não sancionar muitas das faltas que sofre. Ainda assim, o famoso pontapé-rocket do mais caro jogador do mundo deve ter a ignição avariada. Ultimamente, não tem saído.
Duda
Em Budapeste, revelou, mais uma vez, que não é jogador para estar naquela posição, numa selecção que tem como pretensão estar num Campeonato do Mundo.

"Eu nem ouvi o que o Sá Pinto disse. Respeito o Sá Pinto, mas dispenso os conselhos dele. Ele que deixe isso para outras pessoas"
Liedson sobre Sá Pinto à Sport TV, 2/2/2010