Uma década depois, o FC Porto voltou a vencer no seu estádio uma equipa espanhola. A 20 de Outubro de 1999, tinham sido os golos de Jardel a derrotar o Real Madrid; hoje foi Falcao a abrir o marcador, que haveria de ser fechado por Rolando. Dois golos que disfarçaram uma exibição intermitente e apenas melhorada quandoTomás Costa deu lugar a Guarín e Raul Meireles recuou. Mas quem continua a fazer a diferença é Falcao, que anda de lua de mel com o golo.
O mesmo estádio recebeu as mesmas equipas 202 dias depois, mas agora com o Atlético a tentar contrariar a dinâmica perdedora que atravessa – não venceu nenhum dos últimos seis jogos. Nos últimos dias, os jornais espanhóis noticiaram, inclusive, que os responsáveis madrilenos contactaram o argentino Diego Simeone, que não terá querido deixar de treinar o San Lorenzo. Verdade ou mentira, o presidente Enrique Cerezo garantia hoje que Abel Resino iria continuar à frente da equipa. E o antigo guarda-redes respondeu com uma estratégia que revelou, pelo menos, ter estudado bem o FC Porto, algo que não ficou evidente há sete meses, quando deixou Forlán ficar quase uma hora do “banco”.
Mas as diferenças não se ficaram por aí, como se pode medir pelo facto de nenhum jornal ter acertado no “onze”. Também era difícil, porque o lateral esquerdo António Lopez foi substituído pelo colombiano Perea, um central que vinha jogando a lateral direito. A outra extremidade foi ocupada pelo checo Ujfalusi, também ele um central. A ideia foi colocar dois homens fortes e rápidos nas alas, certamente porque Abel Resino guardara na memória as arrancadas supersónicas de Hulk, principalmente na capital espanhola.
As cautelas do Atlético podiam ainda ser medidas pelo bloco baixo e pela forma como colocava dez homens atrás da bola quando o FC Porto atacava, deixando apenas Aguero lá na frente. Simão surgia fixo na esquerda, enquanto Forlán vagueava, partindo da direita. Ambos jogavam na mesma linha de Jurado (este no meio), fazendo com que a equipa espanhola se distribuísse no 4x2x3x1 que vem sendo a sua opção habitual nos últimos tempos.
A lesão de Roberto
O FC Porto até começou de forma muito razoável, não se notando logo as cicatrizes deixadas pela troca do lesionado Fernando por Tomás Costa. Viu-se então um futebol bem cozinhado, mas excessivamente condimentado à direita, onde começou por surgir Hulk. O saldo deste período, de pouco mais de 20 minutos, em que os portistas tiveram o controlo de acontecimentos, não foi nada por aí além. Dois remates (ambos altos) de Mariano e Hulk e um salto de cabeça de Falcao causaram bem menos emoção do que um disparo de Aguero, após um mau atraso de Tomás Costa.
O fim deste período coincidiu com uma situação que podia ter sido perigosa para o Atlético. Lesionou-se o guarda-redes Roberto, que só vem ocupando o lugar porque Asenjo está em África no Mundial de Sub-20. Entrou a terceira opção, De Gea, muito alto, mas apenas com 18 anos. A verdade é que, nos 40 minutos seguintes, o FC Porto não foi capaz de testar as capacidades do jovem guardião. Por uma questão de pontaria – os primeiros sete remates portistas, com excepção de um (fraquinho) de Fucile, foram para fora –, mas principalmente porque há portistas em sub-rendimento. Mariano foi assobiado mal a instalação sonora anunciou a sua titularidade e o amarelo das botas estreadas hoje por Raul Meireles condiz com o seu actual grau de acerto.
A pouco e pouco, o Atlético foi equilibrando as contas da posse de bola, passando mesmo para a frente neste capítulo, em resultado tanto do desacerto portista como da fiabilidade de Paulo Assunção (assobiado sempre que tocava na bola, tal como Simão) e de Jurado. Neste período, Ujfalusi esteve perto de marcar e o árbitro Nicola Rizzoli, um arquitecto italiano, deixou prosseguir um lance duvidoso na área portista, em que Álvaro Pereira pode ter derrubado Aguero.
O minuto 66 acabou por ser decisivo. Saiu Tomás Costa (mais uma experiência falhada a “trinco), entrou Guarín e Raul Meireles recuou para a posição seis. As melhoras portistas foram imediatas. Quatro minutos depois, o até aí apagado Belluschi surgiu solto, mas De Gea defendeu com os punhos. Aos 75’, Hulk tentou primeiro à bomba, com o guarda-redes espanhol a responder bem, acabando o brasileiro por se decidir por um cruzamento subtil. Quem lucrou com isso foi Falcao, genial a definir o lance de calcanhar.
O colombiano podia ter voltado a marcar de cabeça logo a seguir (nova boa defesa de De Gea), mas o golo da tranquilidade acabaria por surgir aos 81’. Após um pontapé de canto, Bruno Alves cabeceou ao poste, surgindo Rolando a empurrar a bola para o fundo da baliza.
Nas bancadas respirou-se de alívio e o FC Porto voltou a vencer um jogo em que teve fases cinzentas, tal como frente ao Sporting. Falcao tornou a ser o alquimista de uma equipa que lá vai transformando o ferro em ouro.
Notícia actualizada às 23h15
Ficha de jogo
FC Porto, 2
A. Madrid, 0
Jogo no Estádio do Dragão, no Porto.
Assistência: 37.609 espectadores
FC Porto Helton, Fucile, Rolando, Bruno Alves, Álvaro Pereira, Tomás Costa (Guarin, 67), Raul Meireles, Belluschi, Mariano (Valeri, 91), Hulk e Falcao (Farias, 88).
Atlético de Madrid Roberto (David De Gea, 25), Ujfalusi, Pablo Ibánez, Juanito, Perea, Paulo Assunção, Cléber, Jurado (Reyes, 79), Simão (Maxi Rodriguez, 70), Aguero e Forlán.
Árbitro Nicola Rizzoli (Itália).
Amarelos Paulo Assunção (36) e Perea (48).
Golos 1-0, por Falcao, aos 75'; 2-0, por Rolando, aos 82'.
POSITIVO e NEGATIVO
+
Falcao
Mais um golo determinante, o seu primeiro na Champions, mais uma exibição de grande nível, em que foi provavelmente o melhor em campo. Hulk teve lances feitos de potência e velocidade, mas a subtileza e a agilidade do colombiano é que continuam a fazer a diferença.
Fucile
Um bom jogo do lateral uruguaio, que anulou Simão, obrigando-o a receber uma assobiadela monstra, quando foi substituído.
Jurado
Foi sempre o espanhol mais lúcido e, mesmo partindo de uma posição recuada, um dos mais perigosos. Não se percebeu a sua substituição.
-
Defesa do Atlético de Madrid
Abel Resino tentou resolver os problemas defensivos recorrendo a quatro centrais, dois deles colocados nas alas. Mas seria, mais uma vez, o sector mais recuado a falhar.