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Aventura

O alpinista que nunca cresceu

19.10.2009 - 16:23 Luís Octávio Costa

nFactos/Fernando Veludo
Doug Scott

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Montámos o laboratório para descodificar o genoma do ser humano que passou uma noite a mais de 8700 metros de altitude e que desceu o Ogre com as duas pernas partidas pelos tornozelos. Em 1975 parecia o Sandokan. Aos 68 anos transforma entrevistas numa aventura. Dissemos "ser humano"?

No início dos anos 90, um grupo de cientistas seleccionou seis alpinistas de topo, fechou-os num hospital na Suíça e submeteu-os a uma sessão exaustiva de testes. "[Reinhold] Messner, [Peter] Habeler, eu e outros três alpinistas fomos observados durante três dias. Fomos seleccionados porque passámos uma noite acima dos oito mil metros e sobrevivemos", contou à PÚBLICA Doug Scott, um dos potenciais super-heróis. Conclusão laboratorial? São pessoas super normais. "Pensavam que éramos uma raça especial, mas afinal parece que somos muito vulgares."

A ciência é a ciência e quem somos nós para desmentir um grupo de senhores de bata branca? Mas temos direito a uma segunda opinião e a um bocado de metafísica quando se trata do ADN do primeiro ser humano que escalou o Monte Evereste pela impossível face sudoeste, do homem que passou uma noite a mais de 8700 metros de altitude num buraco escavado na neve, com alucinações e sem oxigénio artificial, do alpinista de pele e osso que desceu o Ogre (7400 metros de altitude), no Norte do Paquistão, com as duas pernas partidas pelos tornozelos e com os dedos e o corpo corroídos pelo gelo. Doug Scott sobreviveu para contar. E hoje, aos 68 anos, longe do antigo ar do "tigre" Sandokan, ainda é capaz de transformar uma simples entrevista numa aventura. Duas respostas hoje, pelas sete da manhã, outras cinco amanhã durante o pequeno-almoço de madrugada e uma conversa extra mais logo depois de uma trinca numa ameixa e de uma perseguição a alta velocidade - tudo isto mediante a promessa de o levarem a escalar na Freixa da Mizarela, na Serra da Freita.

Puxámos a fita atrás. E depressa abandonámos a teoria da hereditariedade. "O meu pai era polícia e a minha mãe foi doméstica excepto durante a Guerra, nessa altura trabalhou numa fábrica de tabaco. O meu pai era um homem do desporto, foi pugilista amador, um peso pesado. Mas não percebia nada de montanhismo", conta Douglas Keith Scott, um "vivaço". Tradução: trepava tudo o que não mexia, metia-se muitas vezes em sarilhos e chegava a casa com alguma frequência escoltado por colegas de profissão do pai...

Na escola, os castigos tornaram-se tão frequentes que Douglas "usava calções por baixo das calças" para amortecer as palmadas. Lembra-se que em 1953, em pleno Royal Albert Hall, foi repreendido por uma professora por interromper constantemente a palestra de um explorador que tagarelava sobre o Evereste. "Nessa altura o Evereste não me fascinava", diz hoje, ainda com ar reguila.

Começou a escalar aos 12 anos precisamente porque "não era um aluno muito dedicado" e porque tinha demasiado tempo livre. "Escalava todos os fins-de-semana. Saía à sexta à noite e voltava no domingo à noite ou na segunda de manhã". Apesar dos altos e baixos, terminou os estudos e ainda tentou ter uma vida normal. Deu aulas de Geografia e de História, mas pode dizer-se que também não foi um professor muito dedicado. Reformou-se compulsivamente aos 31 anos, trabalhou nas obras - também já tinha sido ardina porta-a-porta - e passou o resto da vida a escalar.

Primeira modalidade? Escalar à boleia. Andou pela Europa e por Marrocos. "Nos anos 60 pedir boleia era muito rápido e comum. Toda a gente praticava". Aos poucos cansou-se de papéis secundários, de repetir milhares de vezes percursos traçados por outros exploradores. Percebeu que "conseguia subir por onde nunca ninguém tinha subido" e que dava nas vistas cada vez que abria uma nova via na montanha. Fez disso uma galinha dos ovos de ouro: palestras, artigos, fotografias e, de repente - como uma zona de descompressão que aparece no horizonte durante uma escalada vertiginosa - a fama.

"Parabéns, rapaz"

Doug Scott, natural de Nottingham, dificilmente imaginaria que em 1975, conquistado o Evereste, seria recebido no aeroporto de Heathrow como um herói da nação. Ou que em 1977, regressado do Inferno paquistanês, voltaria a ser capa de jornais deitado na cama do hospital com ar de Jesus Cristo a comer um cacho de uvas.

O nosso aventureiro já tinha escalado Changabang, India e Peak Lenine, na fronteira entre o Tajiquistão e o Quirguistão, quando resolveu deixar para trás a primeira mulher e três filhos para enfrentar definitivamente o Evereste, onde já tinha passeado duas vezes. "Quando chegámos ao Evereste em 1975 éramos um grupo com bastante experiência em escalada alpina. Seis de nós tinham estado uma vez e três de nós duas vezes. Sabíamos quando ir, o que levar e tínhamos uma melhor ideia do trajecto, uma nova via. Era uma expedição de pesos pesados".

Atingir o cume foi a sua epifania. "Foi fantástico, foi especial chegar lá. Não me senti pequeno por estar lá, mas senti que fazia parte de alguma coisa maior que estava a acontecer... a olhar para baixo para as nuvens e para os vales. Sentia-me expansivo." Chegaram às seis, o sol punha-se às sete. Sobreviveram porque escavaram na neve uma gruta e passaram a noite a alucinar, entretidos com amigos imaginários.

"Tudo mudou ali. O como e o que é que eu iria escalar no futuro. Se conseguíamos sobreviver uma noite àquela altitude, conseguíamos fazer isso em qualquer sítio onde houvesse neve." Doug Scott e companhia julgavam-se os melhores alpinistas do mundo. Dougal Haston, que o acompanhou no Evereste, morreu pouco depois numa avalanche enquanto esquiava nos Alpes. Scott continuou. E hoje é imbatível no jogo um-dois-três-diga-lá-outra-vez nomes dos sete picos mais altos de cada um dos sete continentes: Monte Evereste (8844 metros, Ásia), Aconcágua (6962 metros, América do Sul), Monte McKinley (6194 metros, América do Norte), Kilimanjaro (5892 metros, África), Monte Elbrus (5642 metros, Europa), Maciço Vinson (4892 metros, Antárctica), Pirâmide Carstensz (4884 metros, Oceânia). E ainda junta a essa lista quatro doseight-thousanders (Kangchenjunga, no Nepal, Shishapangma e Evereste, no Tibete, e Broad Peak, na fronteira da China com o Paquistão).

Nunca sentiu medo. "Medo não. Mas houve duas ou três vezes em que pensei: "Agora é que é, fui longe de mais"." Em 1979, por exemplo, na primeira vez que subiu ao Kangchenjunga, no Nepal. No meio de um furacão às quatro da manhã, sem oxigénio a 7900 metros de altitude. "Ainda estávamos a tentar calçar as botas quando a nossa tenda foi levada pelo vento, e se desintegrou à nossa volta." Ou dois anos antes no Ogre em rapel diagonal numa parede de gelo. "Escorreguei e parti as duas pernas pelo tornozelo. Mas o Chris Bonington, que esmagou as costelas no terceiro dia da descida, tinha mais dores do que eu." Scott disse para Scott: "Ninguém vai deitar-se à espera de morrer." Arrastou-se e rastejou durante quatro dias sem comida até ser encontrado por Clive Rowland e Mo Anthoine. "Estavam na gruta de gelo junto ao cume porque iam subir no dia seguinte e ajudaram-nos a descer. Não nos carregaram, mas tinham cordas para nos ajudar." No hospital, com menos 14 quilos e rodeado de motociclistas acidentados e de pessoas que caíram do telhado, disse que gostava de "testar os limites". AoNottingham Evening Post disse o seguinte: "Depois da subida ao Evereste, recebi 500 ou 600 cartas que diziam "Parabéns, rapaz" e coisas assim. É tudo muito bonito, mas não fiz nada para agradar ou inspirar ninguém." Quando lhe perguntaram se ficava por ali, se aquele era o seu limite, Scott respondeu à sua maneira. "Bem, não acredito que volte a cair e a partir as duas pernas. Se estamos preparados para algo, podemos retirar muito dessa experiência. É por isso que muitas pessoas consomem drogas."

"Não quero ser lembrado"

Mais de 30 anos depois, Doug Scott continua viciado.

Vive numas colinas no Lake District, noroeste de Inglaterra, e escala onde pode e sempre que pode, ainda que Trish não o acompanhe nessas andanças. "Sou casado e feliz há quatro anos. À terceira tentativa encontrei finalmente a minha alma gémea e não é uma alpinista, é uma mulher do campo. Está na indústria do vinho, começou a escrever, é uma excelente cozinheira e adora o ar livre. Tenho um amigo que me disse que seria capaz de dar um tiro na cabeça de tanta inveja."

Hoje diz-se "auto-suficiente", e não só, por ter dois hectares de terra e um quarto de hectare cultivado com vegetais ("O meu maior hobby depois da escalada é a horticultura"). Fica inchado quando se fala de coragem ("Não há medo enquanto as coisas estão a acontecer. O medo é na véspera, quando estamos a fazer o saco na noite antes da subida") e indignado perante a remota hipótese de deixar alguém para trás ("Como é que enfrentaria a vida e os familiares depois disso?").

Quando a PÚBLICA mencionou o nome de Edmund Hillary, o primeiro a pisar o cume do Evereste, o neozelandês que por isso teve a sua cara numa nota de cinco dólares, Doug fez cara de um miúdo de 12 anos que não passa cartão aos galões do famoso explorador que discursa no Royal Albert Hall. "Não quero ser lembrado de todo. Quero morrer na cama de preferência com uma bela mulher."

Hillary disse que preferia ser recordado como um homem que ajudou as pessoas, em vez do alpinista que conquistou a montanha. No fundo, Scott, que desde 1998 dirige a ONG Community Action Nepal, também - criou-a porque foi descobrindo os podres do montanhismo, a exploração a que estão sujeitos ossherpas(guias e carregadores do Himalaia). Procura ter o mesmo papel benfeitor ao serviço da União Internacional das Associações de Alpinismo (UIAA), procurando "manter as tradições do alpinismo e o seu sentido de aventura" e alertar as pessoas para a "desvalorização do que em tempos foi bom". Compara a evolução do alpinismo com o crescimento da BBC (programas educativos/reality shows) e com a metamorfose da comida (slow/fast food).

"Tudo o que começa bem perde o seu momento quando as pessoas querem daí retirar fama ou fortuna. O bom das coisas dilui-se nos jogos das pessoas, sejam eles jogos governativos, autárquicos, comerciais ou educacionais... todos os que usam o alpinismo para algo que não seja alpinismo. Querem que seja seguro, não querem perder ninguém, não querem que ninguém caia, por isso perfuram as montanhas, colocam âncoras fixas, preparam-nas para a chegada das pessoas e criam uma rocha amigável."

Pelo meio, e já na companhia do alpinista português João Garcia, deixa um "exemplo horrível, a Suíça", com 95 por cento da rocha perfurada ("700 anos de história e o que é que têm para mostrar? Relógios de cuco") e um outro "afortunado", Portugal. "Se o João diz que o país tem cem anos de atraso, Portugal está numa posição afortunada. Todas as coisas que a humanidade inicia, perdem inércia a determinado momento. O cristianismo, por exemplo: começou com compaixão e terminou com Cruzadas e Inquisição. De vez em quando as coisas precisam de levar um pontapé e ser colocadas no seu sítio. O alpinismo precisa de regressar às suas bases, àquilo que é fundamental, à aventura, sem as ajudas e o comercialismo. Se Portugal funciona com os métodos tradicionais, como há cem anos, então estão numa posição privilegiada."

Mas ainda há motivos de orgulho no alpinismo? Resposta de opção múltipla.

Em Saddleback, uma montanha "perto de casa" ou "no Tibete" ("Há milhares de cumes no Tibete, centenas pelo menos. Há muito para fazer, muitas coisas acima dos seis mil metros que ainda não foram escaladas. Os miúdos ainda têm muito para fazer") ou numa simples fotografia onde só entram os verdadeiros, os alpinistas que sofreram. "O João pode, os outros não."

Dobrámos a bata branca com a noção de que há coisas que não se medem num laboratório. "O factor X provavelmente é uma obsessão, uma pulsão interior, as entranhas mais fortes... Talvez tenhamos sido crianças inseguras e precisemos de provar alguma coisa..."

Com o gravador desligado, Doug Scott revelou o seu segredo. "Acho que nunca cresci."



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