Sem (muito) dinheiro, sem resultados desportivos e agora sem os principais responsáveis do futebol. O Sporting ficou, ontem de manhã, sem treinador (Paulo Bento) e, à tarde, perdeu o director desportivo (Pedro Barbosa) e o vice-presidente da Sociedade Anónima Desportiva (Miguel Ribeiro Telles). É neste cenário que o presidente José Eduardo Bettencourt vai ter de reconstruir a estrutura do futebol leonino, procurando inverter uma época desportiva em que o Sporting aparece no sétimo lugar da Liga à nona jornada.
A ligação umbical entre Paulo Bento, Pedro Barbosa e Miguel Ribeiro Telles tornou pouco surpreendentes as demissões dos dois dirigentes, horas depois de o treinador se ter demitido. “Pedro Barbosa era mais o director desportivo de Paulo Bento do que do Sporting”, analisou para o PÚBLICO Rui Oliveira e Costa, membro do Conselho Leonino e um dos poucos notáveis que quiseram comentar o actual momento do clube.
Para este membro do Conselho Leonino, a saída de Paulo Bento é um problema grave. “O Sporting não vai ficar melhor, vai ficar pior. Não é fácil arranjar uma solução boa”, diz Oliveira e Costa, referindo-se às limitações orçamentais do clube, também na hora de contratar um novo técnico.
Amarrado a compromissos financeiros, que limitaram o reforço da equipa, o Sporting terá pouca margem para contratar um treinador, mesmo sabendo-se que a rescisão com Paulo Bento nada custará ao clube.
Ainda sem opções
Questionado, ontem, pelo PÚBLICO em conferência de imprensa sobre que tipo de treinador pretende contratar (português ou estrangeiro; jovem ou experiente), José Eduardo Bettencourt começou por ironizar (“sexo masculino e caucasiano”), antes de pedir desculpa pela resposta e confessar não estar preparado para responder. Para Rui Oliveira e Costa, “há duas hipóteses”: “Ou opta por um treinador jovem, com formação, como André Villas Boas, da Académica. Ou escolhe um treinador experiente, como Manuel José. Ambas incluem riscos.”
A escolha do treinador, porém, não é o único problema. Mesmo tendo o pelouro do futebol e sendo presidente a tempo inteiro, o líder leonino terá de reconstruir a estrutura do futebol, após ter perdido os homens da sua confiança. E ficará mais exposto. Bettencourt não fez qualquer declaração após as demissões de Pedro Barbosa e Ribeiro Telles — este renunciou à vice-presidência da SAD, mas até ontem à noite não tinha pedido para deixar de ser “vice” do clube.
Uma das grandes incógnitas é saber como reagirá Bettencourt. Dias Ferreira, presidente da assembleia geral (AG), espera, no entanto, que não haja mais demissões: “Não quero ver o clube a cair como um baralho de cartas”, afirmou o presidente da AG, apelando à calma. “José Eduardo Bettencourt tem o controlo da situação e tudo se resolve”, disse Dias Ferreira, que está “preocupado, mas não desesperado” com o actual momento.
Críticas internas
O cenário do Sporting é também feito de algum desânimo. Paulo Bento, em entrevista à TVI, reconheceu a falta de cultura vencedora do clube (“de 1950 para cá, ganhou oito campeonatos”) e Rui Oliveira e Costa lembra que “o Sporting dominou no tempo em que o futebol era um desporto, o Benfica quando passou a ser profissional e o FC Porto quando passou a ser uma indústria.”
Como se não bastassem os maus resultados, Bettencourt tem-se mostrado incomodado com críticas internas, apesar de ter vencido as eleições de Junho com quase 90 por cento dos votos. Ainda ontem, o líder leonino deixou recados a “sábios” que “falam cada vez mais” e nada fazem, queixou-se de haver no clube “150 pessoas que só têm certezas”, ironizando que “precisa de ter aulas com eles”.
Bettencourt nunca referiu os nomes dos alvos destas críticas que no mês passado definiu como “elites que exigem muito mais do que dão”, mas é sabido que existe no Sporting uma espécie de bicefalia, com a SAD de um lado e a direcção do clube do outro. “Apoio José Eduardo Bettencourt, mas ele tem de saber viver com as críticas. E se fala de alguém dos órgãos sociais deve clarificar quem são”, diz Oliveira e Costa, para quem não será um drama recompor a estrutura do futebol: “Há gente muito competente nos órgãos sociais”, apontado, o exemplo dos vice-presidentes Júlio Rendeiro e Rogério de Brito.