Em circunstâncias normais, um Rio Ave-Sporting à 10.ª jornada não passaria de um modesto programa de entretenimento para um domingo à noite. Mas o momento que hoje se vive em Alvalade é a antítese da normalidade e isso transforma o dia-a-dia do clube numa espécie de "Survival", versão desportiva. Episódio de hoje: terceiro empate fora de portas (2-2) e queda para um alarmante oitavo lugar na Liga.
Enquanto houve luz natural em Vila do Conde, só o Rio Ave teve motivos para festejar: o 25.º aniversário do estádio, a inauguração da loja do clube, a homenagem ao veterano Niquinha, era só escolher. Mais tarde, quando chegou o momento de subir ao relvado, as serpentinas até começaram por passar para o outro lado do campo. Por pouco tempo. Até porque os bons resultados começam a parecer um corpo estranho em Alvalade.
O melhor arranque (o remate espontâneo de Postiga aos 45 segundos não passou de um engano) até foi dos vilacondenses, mas não se traduziu em mais do que simples posse de bola durante cerca de um quarto de hora. O Sporting mal chegava à área? Compensa-se rapidamente. Três cantos seguidos (17’ e 18’), uma falha inacreditável à boca da baliza e o primeiro sinal de que Matias Fernandez é um dos notáveis leoninos.
Sai de cena o Rio Ave versão "cool", entra o Rio Ave versão Sporting - tenso, instável e a tremer como varas verdes. Aproveitou Matias para aliviar um pouco a pressão dos ombros de Bettencourt: precipitação de Wires à entrada da área e o internacional chileno a fazer o resto. Finta para cá, finta para lá, segundo golo em dois jogos consecutivos. Classe. Mesmo que seja em slow motion.
Lá atrás, Miguel Veloso ia segurando o jogo. E dobrando André Marques à esquerda sempre que necessário. E surgindo na frente para as segundas bolas. Aos 38’, assustou Carlos com um remate tão poderoso quanto afinado. Mas bastaria um lançamento lateral para fazer a diferença. Sílvio transformou uma bola morta num problema vivo ao dominar com a mão na área. João Moutinho empurrou para longe (pelo menos) o fantasma dos penáltis falhados.
Duas vezes João Tomás
Que mais poderia pedir Leonel Pontes, um treinador de recurso para uma equipa que continua a ser de recurso? Estavam reunidas as condições para uma segunda parte anormalmente tranquila, soubesse a equipa fazer por isso. Não soube. E o problema é que João Tomás ainda sabe o que faz. Pé esquerdo cruzado para o segundo poste aos 57’, pé direito no coração da área aos 60’.
Por esta altura, já o Sporting voltara à versão Sporting e o Rio Ave ao registo cool que tem passeado pelos relvados da Liga. Sidnei esfrangalhava o sentido posicional de Pedro Silva à esquerda, Bruno Gama metia André Marques num bolso à direita. No eixo da defesa leonina, o panorama não era mais animador. Tonel ia sacudindo como podia, Daniel Carriço podia menos e ia recorrendo às faltas. Amarelo na primeira parte, amarelo na segunda, o Sporting reduzido a dez aos 66’.
Angulo, que entrara ao intervalo para o lugar de Vukcevic, fazia esses dez parecerem nove. E Caicedo cometia a proeza de transformar os nove em oito: aos 75’, na pequena área, só com Carlos pela frente, mostrou habilidade suficiente para falhar o 3-2. Era o último sopro atacante dos “leões”, a quem começam a faltar argumentos para reclamar (ainda mais) paciência aos adeptos. Já fora do estádio, o inconformismo da praxe: “Vocês são uma vergonha”. E o jogo com o Pescadores da Costa da Caparica, para a Taça de Portugal, a ficar tão mais difícil.
POSITIVO
João Tomás
Aos 34 anos, continua a merecer um lugar na Liga. Dois golos ao Sporting dizem tudo. E já leva cinco no campeonato.
Matias Fernández
É o único desequilibrador de uma equipa deprimente. Não é rápido, não é robusto, mas é dos poucos que sabe o que fazer com a bola nos pés.
NEGATIVO
Daniel Carriço
Erros de marcação, um amarelo a terminar a primeira parte, outro a meio da segunda. E Anderson Polga a ver o jogo do banco.
Sílvio
Transformar um inofensivo lançamento lateral num penálti não é para todos. Infelizmente para o Rio Ave, Sílvio decidiu aparecer no jogo pelas piores razões.
Ficha do jogo
Estádio do Rio Ave Futebol Clube, em Vila do Conde.
Assistência Cerca 4.500 espectadores.
Rio Ave Carlos 5; Zé Gomes 6 (Adriano -, 81’), Gaspar 6, Fábio Faria 6, Sílvio 4; Vítor Gomes 6, Wires 5, Ricardo Chaves 5 (Tarantini 5, 46’); Bruno Gama 7, João Tomás 8, Sidnei 6 (Chidi 5, 75’). Treinador Carlos Brito.
Sporting Rui Patrício 5; Pedro Silva 5, Carriço 4, Tonel 5, André Marques 4 (Caicedo 3, 64’); Miguel Veloso 6; João Moutinho 6, Matías Fernandez 7, Vukcevic 5 (Angulo 4, 46’); Liedson 6, Hélder Postiga 5 (Polga 5, 68’). Treinador Leonel Pontes.
Árbitro Artur Soares Dias 7, do Porto.
Amarelos Carriço (44’ e 65’), André Marques (50’). Vermelho Carriço (65’).
Golos 0-1, por Matías Fernandez, aos 21’; 0-2, por João Moutinho (g.p.), aos 45’; 1-2, por João Tomás, aos 57’; 2-2, por João Tomás, aos 61’.
Notícia actualizada às 23h14