O Real Madrid não pode impedir Cristiano Ronaldo de viajar para Portugal, mas a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) também não pode obrigá-lo a apresentar-se. A lei deixa nas mãos do jogador a decisão sobre se quer ser examinado pelos médicos na selecção portuguesa em Óbidos ou em Espanha. Ao que o PÚBLICO apurou, o jogador quererá vir a Portugal, mas falta saber se resistirá às pressões do clube espanhol.
Cristiano Ronaldo ficou ontem em silêncio, a Federação Portuguesa de Futebol apenas disse aguardar os jogadores que alinham em Espanha (excepto Miguel) na quarta-feira e o Real Madrid nada acrescentou à sua posição de que as portas do clube estão abertas para os médicos da selecção avaliarem a lesão do jogador. Apesar de a imprensa espanhola ter apontado baterias ao seleccionador português, Carlos Queiroz, certo é que neste caso a decisão caberá a Ronaldo.
"Um jogador que, por lesão ou doença, não possa responder à convocatória da selecção pela qual pode jogar em razão da sua nacionalidade deve, se a federação assim o exigir, submeter-se a um exame por um médico à escolha da federação", lê-se no artigo 4.º do anexo I do Regulamento da FIFA sobre o Estatuto e Transferências de Jogadores. O mesmo que termina estipulando que, "se o jogador desejar, o exame médico pode realizar-se no território da federação pela qual está inscrito", neste caso Espanha.
A Federação Portuguesa de Futebol não tinha recebido até ontem nenhuma indicação de que Ronaldo não quer deslocar-se a Portugal. Segundo os jornais Marca e As, o Real Madrid terá escrito uma carta, assinada por Jorge Valdano e Ronaldo, a solicitar a realização de exames em Espanha. A FPF diz que não recebeu qualquer carta, apenas os relatórios médicos.
O director-geral do clube espanhol, Jorge Valdano, já tinho dito anteontem que não é por "capricho" que o Real não está a utilizar Cristiano: "O jogador está de baixa. Os médicos de Portugal têm as portas do clube abertas, para virem comprovar o estado do jogador. De todas as formas, nesta segunda-feira [ontem] mandaremos todos os relatórios médicos".
Numa guerra em surdina em que - como admitiu ontem Manuel Pellegrini, treinador do Real Madrid - "cada um defende os seus interesses", a FPF espera que Ronaldo se junte aos companheiros até quarta-feira, dia limite para o futebolista se apresentar, tendo em conta o regulamento da FIFA, que obriga os jogadores a juntarem-se à selecção até quatro dias antes de um jogo oficial (incluindo o dia da partida). Para a FPF, e apesar de Ronaldo não estar convocado para o jogo de hoje da Taça de Espanha, o avançado do Real Madrid está na mesma situação de Simão, Edinho, Duda e Pepe, que hoje jogam pelos seus clubes e que só amanhã se juntam à selecção.
Este caso entre a FPF e o Real Madrid é mais um na cada vez mais tensa relação entre clubes e selecções. Pep Guardiola, treinador do Barcelona, disse ontem que existe "uma certa desconfiança entre os clubes e as selecções": "Parece que ninguém confia em ninguém", resumiu o técnico catalão, falando na necessidade de dar "um passo em frente" para clarificar este tipo de conflitos. Os clubes alegam que pagam os ordenados aos futebolistas; as federações contrapõem o sentimento patriótico de jogar por uma selecção e a valorização dos futebolistas nas grandes provas internacionais. Quem terá mais razão?