Se “o futebol é o espelho das sociedades”, como diz o jornalista e escritor Ignacio Ramonet, a Bósnia-Herzegovina é um bom exemplo. Num país dividido em três comunidades (muçulmanos, sérvios e croatas), a Federação de Futebol (FFB) e a selecção nacional não escapam a estas divisões étnicas. A FFB tem um presidente e dois vice-presidentes, um de cada uma das comunidades. E, a cada 16 meses, a presidência roda.
A própria selecção é ainda um factor de alguma divisão. Muitos dos sérvios da Bósnia ainda se preocupam mais com os resultados da selecção sérvia e não festejam os triunfos da equipa nacional da Bósnia. Até por isso, um possível apuramento da selecção para o Mundial de futebol é visto com grande expectativa. “Só posso esperar vitórias, porque as pessoas tendem a identificar-se com os vencedores. O ‘eles’ torna-se ‘nós’”, disse o seleccionador Miroslav Blazevic no mês passado.
O tema das nacionalidades é, aliás, uma espécie de tabu na selecção. Os jogadores são na sua maioria muçulmanos, mas ninguém gosta muito de falar disso. “São todos jogadores da nossa selecção”, respondeu ao PÚBLICO a assessora de imprensa da FFB. “Antes havia obrigação de termos o mesmo número de jogadores muçulmanos, sérvios e croatas. Agora jogam os melhores”, conta o jornalista Adnan Burazerovic, citando os nomes de Supic, Misimovic, Hrgovic, Pandza e Damjanovic como exemplos de futebolistas que não pertencem à comunidade muçulmana.
Blasevic, o salvador
A chegada de Blazevic em Julho do ano passado e os bons resultados da equipa estão a ajudar à reconciliação nacional e permitiram acalmar a contestação aos responsáveis da Federação de Futebol da Bósnia, acusados de fraude fiscal e corrupção. “A euforia é grande”, descreveu ao PÚBLICO Eldina Pleho, jornalista do Centro de Jornalismo de Investigação, em Sarajevo, instituição que em Dezembro do ano passado publicou uma série de reportagens sobre os meandros do futebol bósnio. “Os adeptos ainda se opõem aos dirigentes da federação, mas agora estão mais concentrados no apoio à selecção”, acrescenta a mesma jornalista.
Uma das principais razões para esta contestação é a acusação de fraude fiscal superior a um milhão de euros que recai sobre os responsáveis da federação, incluindo o secretário-geral e o secretário das finanças. “Estão a decorrer as audições finais do julgamento e um dos dirigentes da federação está mesmo na prisão”, conta Eldina Pleho, a única que aceitou falar sobre este tema. Às recusas de outros analistas não terão sido alheias as ameaças que foram feitas no passado contra jornalistas que ousaram criticar a federação ou denunciar os casos que envolvem os seus dirigentes.
Boicote
Mas nem só os adeptos contestam os homens que dirigem o futebol bósnio, suspeitos também de corrupção e tráfico de influências para se manterem no poder. Em Setembro, numa reportagem da televisão alemã ZDF, o avançado Dzeko apontava uma explicação para a fraqueza dos clubes bósnios: “Acredito que seja porque a corrupção está em todo o lado.”
E já em Outubro de 2007, 13 jogadores da selecção (incluindo o “capitão” Emir Spahic e Misimovic, um dos craques que hoje defrontam Portugal) publicaram uma carta aberta no jornal Dnevni Avaz anunciando que não representariam a selecção enquanto estes dirigentes se mantivessem. Os futebolistas cumpriram a promessa durante alguns meses, mas muitos deles regressaram no ano passado, depois de Blazevic ter sido contratado. O croata, de 74 anos, foi um achado para a federação bósnia, então a braços com mais protestos por ter despedido Meho Kodro ao fim de quatro meses de trabalho.
O sucesso de Blazevic, porém, amenizou as críticas. A Bósnia está a dois passos de obter a sua primeira presença numa grande competição internacional de futebol. Uma qualificação que pode ser um contributo importante para a união de um país dividido... e para a manutenção dos polémicos dirigentes federativos.