Vieram um pouco de todo o lado. Da Alemanha, da Bósnia, da Holanda e até da Austrália e dos Estados Unidos. Cerca de 4000 adeptos da Bósnia viajaram até Lisboa para ver algo que para eles é mais do que um jogo. “Chegar ao Mundial para nós significa o mesmo que os portugueses verem a sua selecção ser campeã do mundo”, diz ao PÚBLICO Nihad Karic, um jovem advogado de 25 anos, que vive e trabalha perto de Frankfurt, na Alemanha.
A euforia está no rosto, nas palavras e nos gestos dos adeptos bósnios. “Se ganharmos esta eliminatória sabemos que somos alguém”, acrescenta Nihad, no meio da multidão que hoje à tarde enchia a Praça do Rossio, em Lisboa.
O momento na Bósnia é de felicidade. Há semanas que não se fala de outra coisa: os dois jogos com Portugal e a hipótese de chegar pela primeira vez a um Mundial de futebol. “São os jogos mais importantes da nossa história. É o momento mais importante do país neste século”, diz mesmo Edin, que mora na Holanda e veio a Portugal com os amigos.
Muitos dos adeptos bósnios que se deslocaram a Portugal vivem fora do país em que nasceram. Saíram por causa da guerra, separam-se de familiares e amigos e muitos não pensam voltar. “O meu coração está na Bósnia, mas o meu cérebro na Alemanha”, confessa Nihad, um muçulmano que foi aconselhado pelo professor sérvio ortodoxo a sair do país.
Da boca dos adeptos saem palavras como corrupção, vida difícil, baixos salários para descrever como é o país Natal. Mas no meio de tantas dificuldades há ainda espaço para sacrifícios financeiros para ver a selecção jogar. Alan Jelacic mora em Sarajevo. Este bancário de 28 anos fez um crédito para viajar até Lisboa. Ainda por cima foi enganado pela agência de viagens, que cancelou o voo no último momento. Foi de carro até Zagreb (cinco horas) e daí apanhou um avião para Lisboa. Endividou-se ainda mais. Pediu dinheiro a primos e amigos. Gastou mais do que o salário mensal para ver um momento único. Porquê? “Não aconteceu nada de bom à Bósnia desde a guerra”, responde Alan, esperançado que o futebol ajude a unir um país dividido por religiões e nacionalidades.
Este é o ponto em que menos coincidem os eufóricos adeptos bósnios. Uns, como Nusret (um empresário de 38 anos que veio da Alemanha), acham que o sucesso da selecção de futebol “pode ajudar um pouco” a unir as três comunidades que formam a Bósnia (muçulmanos, sérvios e croatas). Outros, como Elvisa (uma funcionária de uma empresa de telemóveis na Holanda), pensam que nada mudará. “Os sérvios odeiam-nos e nós também os odiamos”, diz secamente Elvisa, com a expressão dura de quem não quer perdoar.
Unânime é a ideia de que uma presença no Mundial pode dar outra imagem da Bósnia ao mundo e dar algumas alegrias à população. “Se formos à África do Sul, as pessoas vão esquecer-se dos baixos salários e das dificuldades”, argumenta Alan, um habitante de Sarajevo que foi ferido na guerra em 1993, mas acredita no futuro da Bósnia.
Para eles, é certo, estes dois jogos são muito mais do que isso. São a hipótese de um “novo começo”, diz Nihad, o advogado de Frankfurt, ou “o início da mudança”, como afirma Alan, o gerente de uma companhia farmacêutica. Querem deixar a guerra para trás, esquecer as misérias, as dificuldades económicas, os ódios nacionalistas. “Só se fala da Bósnia por más razões, como a guerra e a corrupção”, refere Elvisa. “Agora podem ser boas notícias”.