Uma vantagem magra (mas sem golos sofridos), um punhado de preocupações e três baixas no adversário. É isto que Portugal vai levar na bagagem para a Bósnia, onde na quarta-feira jogará a segunda mão do play-off de acesso ao Mundial de futebol de 2010. A vitória por 1-0 é um resultado positivo e mais se torna interessante depois do que se passou no Estádio da Luz, onde a equipa de Queiroz foi bafejada pela sorte que lhe faltou noutros momentos.
O jogo provou duas ideias que foram muito repetidas nos últimos dias. Que esta eliminatória não é nada fácil, mesmo não sendo a Bósnia um colosso. E que a selecção de Blazevic ataca bem melhor do que defende.
Sempre que Portugal conseguiu impor trocas de bolas rápidas fez tremer a defesa da Bósnia. O problema é que essas jogadas foram esporádicas, à imagem de uma selecção que ainda não atingiu a qualidade do passado. Porque não houve Ronaldo, porque Deco foi intermitente, porque Simão andou muitas vezes escondido, porque Nani corre muito mas nem sempre pensa bem e porque os laterais quase não subiram no terreno.
Valeu que a velocidade de Nani foi um quebra-cabeças para os defesas bósnios na primeira parte. E assim nasceu o golo de Portugal, o principal activo para a viagem a Zenica. Na segunda vaga após um canto, Deco e Nani encontraram o espaço necessário para o extremo do Manchester cruzar para a área, onde Bruno Alves apareceu ao segundo poste (31’). O central do FC Porto marcou pela segunda vez neste apuramento e igualou os avançados Liedson e Hugo Almeida.
O golo mudou as feições do jogo. Portugal recuou na defesa da vantagem e deu espaço ao ataque da Bósnia. Ibisevic (34’) deu um primeiro aviso com um remate à meia volta, Salihovic obrigou Eduardo a fazer uma grande defesa (38’) e Ibricic cabeceou à trave em cima do intervalo (43’).
Portugal agradeceu o intervalo, até porque a Bósnia teve mais remates (nove contra sete) e mais oportunidades na primeira parte, aproveitando as dificuldades portuguesas em parar os alas Ibricic e Salihovic.
A lição foi estudada no balneário e a selecção de Queiroz acertou as marcações frente a uma equipa com um esquema (3x5x2) a que está pouco habituada. Impulsionada pela pujança de Pepe, a selecção teve o melhor período por volta dos 60 minutos. Liedson desperdiçou uma grande oportunidade (57’), após excelente trabalho individual, ele que já na primeira parte tinha cabeceado ao lado. E Simão e Deco também tentaram a sorte, mas sem sucesso.
O bom Portugal acabou por aqui, até porque as substituições de Queiroz não resultaram. A selecção recuou e voltou a ter a sorte pelo seu lado. Na mesma jogada, Dzeko atirou à trave e, na recarga, Muslimovic rematou ao poste (89’). Mais um lance que adensa as preocupações para a segunda mão, em que a Bósnia parte atrás, mas com a esperança de ganhar.
Além da vitória por 1-0 (resultado bom, mas curto), a selecção vai à Bósnia com os prós e contras de uma segunda mão fora. Tem a desvantagem de jogar contra o público local e em condições (relvado e meterologia) a que não está habituado, mas sabe que em caso de empate um golo fora vale a dobrar. E pode contar com três baixas no adversário por acumulação de amarelos (Rahimic, Spahic e Muratovic) num jogo que será certamente de muito sofrimento.
Ficha de jogo
Portugal 1
Bósnia-Herzegovina 0
Jogo no Estádio da Luz, em Lisboa.
Assistência: 60 588 espectadores.
Portugal: Eduardo, Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Bruno Alves, Duda, Pepe, Raul Meireles, Deco (Tiago, 84), Nani (Fábio Coentrão, 69), Simão (Hugo Almeida, 88) e Liedson.
Bósnia-Herzegovina: Kenan Hasagic, Sanel Jahic, Safet Nadarevic, Emir Spahic, Senijad Ibricic, Sejad Salihovic, Elvir Rahimic, Samir Muratovic (Miralem Pjanic, 87), Zvjezdan Misimovic (Zlatan Muslimovic, 81), Vedad Ibisevic e Edin Dzeko.
Árbitro: Martin Atkinson (Inglaterra).
Amarelos: Deco (14), Vedad Ibisevic (15), Samir Muratovic (37), Elvir Rahimic (48) e Emir Spahic (71).
Golo: 1-0, por Bruno Alves, aos 31 minutos
Notícia actualizada às 23h21
A FIGURA DO JOGO
Pepe, o comandante
Não marcou, não deu a marcar, mas no futebol também há que destacar os homens de trabalho. Central no Real Madrid, Pepe tem sido adaptado a “trinco” na selecção nos jogos com adversários difíceis. E cada vez dá mais razão a esta opção de Queiroz. Imperial no jogo áereo e muito disponível para a luta, o luso-brasileiro foi sempre o jogador mais pressionante do meio-campo português. Roubou muitas bolas e até se deu ao luxo de sair a jogar e tentar desequílibrios nos momentos de bloqueio de Deco. Képler Laveran de Lima Ferreira, assim de chama este rapaz nascido em Maceió há 26 anos, tem ainda outra qualidade espantosa. Joga com amor à camisola, como se tivesse nascido em Portugal ou como se fosse sempre o jogo da vida dele. Às vezes comete excessos (como aquele que lhe valeu uma suspensão de dez jogos em Espanha por agressões tresloucadas a dois jogadores do Getafe), mas esse momento de desnorte parece ultrapassado. Na Hungria marcou um golo fundamental e neste sábado foi o mais parecido com um líder. O comandante de uma selecção que teve (e vai ter) de sofrer para estar na África do Sul.
POSITIVO e NEGATIVO
+
Bruno Alves
É a segunda vez que salva Portugal. Depois da Albânia, voltou a marcar. E na defesa, mesmo com problemas físicos, aguentou-se, contra avançados de classe mundial. O elogio vale também para Ricardo Carvalho.
Meireles
Não está na plenitude das capacidades físicas, mas (excepto Pepe) foi o mais regular no meio-campo. Trabalhou muito, fez passes de classe e ainda rematou.
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Substituições de Queiroz
Coentrão cedeu ao nervosismo e Tiago foi insuficiente para compensar o défice de posse de bola. É fácil falar a "posteriori", mas Portugal piorou depois de Queiroz mexer.
Duda
Demasiadas hesitações a defender que podiam ter custado caro. Na Bósnia, será preciso um defesa-esquerdo mais fiável.