Ricardo Carvalho, Bruno Alves e Pepe. Nenhum deles marcou, mas foi neste trio da defesa que assentou a segurança que permitiu a Portugal fazer, em Zenica, um jogo quase perfeito do ponto de vista táctico. A vitória na Bósnia (1-0) só peca por defeito e mostrou uma equipa capaz de se superar nos grandes momentos e de contrariar os ambientes difíceis. A coragem da defesa empolgou o ataque, que ficou a dever aos adeptos portugueses uma goleada das antigas.
Zenica terá de ficar como uma noite histórica no currículo desta selecção de Carlos Queiroz, um técnico que, finalmente, contrariou a malapata de maus resultados nas selecções seniores. Num outro palco, com melhores condições, a exibição desta quarta-feira teria ganho contornos ainda mais memoráveis. É que o relvado é muitas vezes apresentado como desculpa para derrotas ou más exibições. Mas neste caso foi mesmo uma forte condicionante do jogo. Quando a FIFA autoriza encontros internacionais em estádios deste nível (quando há alternativas no país) arrisca-se a ter espectáculos inferiores ao esperado quando estão em campo jogadores de classe.
Com o relvado assim, o jogo transformou-se, irremediavelmente, numa batalha muito mais física. E em alguns momentos (especialmente na primeira parte) mais parecia tratar-se de uma partida de râguebi, com as equipas a tentarem ganhar terreno e a moverem-se em campo como um bloco maçico, como acontece no jogo da oval.
Mesmo não tendo características inatas para um confronto deste tipo (muito físico e aéreo), Portugal abordou muito bem os sempre problemáticos minutos iniciais — mais complicados ainda em estádios com adeptos muito fanáticos. Muito segura a defender, especialmente graças ao trio Ricardo Carvalho, Bruno Alves e Pepe, a selecção portuguesa ainda foi a que mais perigo criou. A eliminatória podia ter ficado quase sentenciada logo aos 25’, quando Raul Meireles apareceu isolado, mas foi incapaz de bater Hasagic. Logo no início da segunda parte, Nani também falhou na cara do guarda-redes (49’), mas à terceira o golo surgiu mesmo. Meireles aproveitou da melhor forma um passe de Nani e escancarou as portas do Mundial para a equipa nacional.
Meireles quase bisou
O golo trouxe o silêncio a um estádio que só foi explosivo quando os bósnios subiram pela primeira vez ao relvado e para o aquecimento. Depois, os adeptos bósnios, que queriam encurralar Portugal com o medo do ambiente e assobiaram o hino nacional, viram o feitiço virar-se contra o feiticeiro: foram eles que soçobraram ao medo cénico, neste caso não do cenário físico, mas da dura realidade.
É que quando olhavam para o relvado viam uma equipa portuguesa a jogar de forma adulta e a controlar sempre o jogo. E se, na primeira parte, Portugal nem sempre conseguiu aliar a segurança defensiva a um ataque mordaz, no segundo tempo a onda de qualidade dos defesas foi contagiando os atacantes, com a velocidade de Nani a emergir, muitas vezes alimentada pelo trabalho discreto, mas decisivo, de Tiago.
Mesmo com Simão em claro sub-rendimento e Liedson longe dos seus melhores dias, Portugal foi criando sucessivas oportunidades. Duda (63’) atirou às malhas laterais, Meireles atirou ao lado (71’), Carvalho também falhou o segundo golo português (80’) e Edinho desperdiçou a mais incrível oportunidade de todas (84’), antes de, nos descontos, Meireles ter falhado a hipótese de bisar.
Nas bancadas, os adeptos bósnios rendiam-se às evidências, havendo até alguns que pronunciavam com resignação os nomes de Pepe, Carvalho e Alves, o muro que lhes barrou o acesso ao Mundial. Pjanic deu alguns sinais de que vai ser um craque e obrigou Eduardo a uma boa defesa (75’), enquanto Dzeko voltou a mostrar que é um avançado de classe mundial, mas que teve o azar de encontrar pela frente dois centrais de idêntica colheita, desta vez auxiliados por um Paulo Ferreira e um Duda muito seguros.
Portugal sai da Bósnia com a missão cumprida (talvez um pouco mais tarde do que inicialmente contava), mas este jogo, em Zenica, serviu para dar uma nova alma à equipa. E também para apagar os receios dos adeptos de que este grupo de óptimos jogadores não fosse capaz de jogar colectivamente e completar uma década de presenças consecutivas nas grandes competições internacionais.
Ficha de jogo
Jogo no Estádio Bilino Polje, em Zenica.
AssistênciaCerca de 15.000 espectadores.
BósniaHasagic 7; Pandza 4, Nadarevic 4, Jahic 4; Ibricic 6, Bajramovicv 5 (Berberovic -, 82’), Medunjanin 4 (Muslimovic 4, 46’), Pjanic 6, Salihovic 4; Ibisevic 5, Dzeko 6
TreinadorMiroslav Blazevic
PortugalEduardo 7; Paulo Ferreira 7, Ricardo Carvalho 8, Bruno Alves 8, Duda 7; Pepe 8, Raul Meireles 8, Tiago 7; Nani 8 (Edinho 4, 73’), Simão 5 (Deco -, 80’), Liedson 5 (Veloso -, 90’).
TreinadorCarlos Queiroz
ÁrbitroRoberto Rosetti 5, de Itália.
AmarelosJahic (25’), Simão (27’), Nadarevic (37’), Dzeko (58’), Salihovic (76’ e 76’), Berberovic (92’).
Vermelho por acumulaçãoSalihovic (76’).
Golos0-1, por Raul Meireles, por 56’.
Notícia actualizada às 22h43