Neste momento, Carlos Carvalhal e Jorge Jesus são homens com missões diferentes. O recém-nomeado treinador do Sporting não prometeu títulos, apenas recolocar a equipa no caminho das vitórias que têm escasseado e que significaram o fim da carreira de Paulo Bento como técnico dos "leões".
Ao técnico que chegou ao Benfica no início da época interessa mostrar que a pilha continua bem carregada e que a eliminação da Taça de Portugal frente ao V. Guimarães foi apenas um percalço. A pressão é grande para Carvalhal e Jesus no encontro de hoje em Alvalade entre Sporting e Benfica, a contar para a 11.ª jornada da Liga. Por motivos diferentes. Mas ela existe.
A história recente dos dois clubes mostra que nos últimos 20 anos apenas uma vez havia uma diferença pontual maior quando se chegava ao dia do grande "clássico" de Lisboa. Esta temporada, em dez jogos, construiu-se um fosso de 11 pontos entre as duas equipas, favorável ao Benfica, que apenas perdeu cinco pontos (empate com Marítimo, na altura ainda orientado por Carvalhal, logo à primeira jornada, e derrota com o Sp. Braga) e está no topo da Liga, em igualdade pontual com os bracarenses. Pelo contrário, o Sporting já deixou fugir mais pontos do que aqueles que conquistou, 14 pontos (três vitórias, cinco empates e duas derrotas) em 30 possíveis, e ocupa um deprimente oitavo lugar.
Carvalhal tem uma herança pesada, um plantel de investimento pouco acima do zero e pouca margem de manobra. Não foi a primeira escolha de José Eduardo Bettencourt para substituir Bento e o seu primeiro teste - na Taça com o Pescadores da Costa de Caparica - não o passou com distinção. Com cerca de duas semanas de trabalho, Carvalhal quer fazer esquecer o losango de Paulo Bento e apresentar novidades tácticas (extremos, defesa à zona, um ponta-de-lança), mas com alternância de sistemas.
O "seu" Sporting tem de crescer depressa se ainda quer pensar em fazer qualquer coisa esta época e o jogo de hoje com o Benfica pode ter um de dois efeitos: vitória moralizadora, como são sempre sobre o Benfica, que relança a equipa; derrota frustrante, sempre amarga contra o velho rival, que afunda ainda mais a equipa e pode colocar em causa até a própria direcção.
Com alguns soluços, o Benfica de Jesus tem sido pouco menos que imparável. O "onze" base está bem definido e a rotação que o técnico vai fazendo mostra que as soluções são abundantes, alimentadas com um grande investimento nas duas últimas épocas em jogadores que fazem toda a diferença - Cardozo, Javi Garcia, Ramires, Saviola, Di María, entre outros. Tudo isto significa que as expectativas são altas e é essa a missão de Jesus, manter a equipa no topo e derrotar de forma convincente um adversário em baixa. Se frustrar as expectativas em Alvalade, especialmente depois da derrota com o Vitória, o estado de graça do técnico benfiquista baixa para níveis que ainda não tinha conhecido desde que chegou à Luz.
O factor Liedson
A diferença entre as duas equipas esta temporada está bem visível nos diversos indicadores estatísticos, e não apenas nos pontos. O Benfica tem mais golos marcados (31, de longe o melhor ataque do campeonato), menos golos sofridos (7, segunda melhor defesa, mais dois que o Sp. Braga) e o seu melhor marcador, o paraguaio Cardozo, tem apenas menos um golo marcado (11) que toda a equipa do Sporting (12). Os "leões", para além da fraca produtividade ofensiva, têm uma média de um golo sofrido por jogo, "só" a sexta melhor do campeonato.
Fazer o Sporting, que já não ganha há cinco jornadas, voltar a marcar golos é outra das missões de Carvalhal e recuperar para a vida goleadora um dos poucos jogadores da equipa que fazem a diferença, Liedson, também. O internacional português leva apenas dois golos no campeonato e nem sequer é o melhor goleador da equipa - é o chileno Matías Fernandez, com três golos -, mas já se sabe que o brasileiro tem uma especial inclinação para marcar ao Benfica - oito golos (ver texto na página 43).
Hoje, em Alvalade, num jogo que será dirigido pelo lisboeta Pedro Proença, Carlos Augusto Soares Faria Carvalhal e Jorge Fernando Pinheiro de Jesus serão dois estreantes nestes clássicos entre os grandes de Lisboa. Mas ambos sabem o que o jogo significa, e ainda mais nestas circunstâncias de tão grande disparidade entre ambos.