Um chegou há dias a Alvalade com a missão de atenuar a crise do Sporting. O outro promete altos voos aos adeptos do Benfica. Em comum, têm um percurso ascendente na Liga.
Carlos Carvalhal
Depois de ter representado 11 clubes (dez portugueses e um grego) como treinador, Carlos Carvalhal acabou por alcançar em Alvalade o patamar mais elevado da sua carreira. Repleto de altos e baixos, o percurso do técnico bracarense iniciou-se no Sp. Espinho, da Liga de Honra, na temporada de 1998-99. Três épocas volvidas, teria o seu primeiro grande desafio aos comandos do Desp. Aves, então a jogar na Liga. Incapaz de evitar a despromoção, Carvalhal foi obrigado a descer uns degraus antes de voltar a subir. Foi assim que chegou ao Leixões, do terceiro escalão do futebol nacional, em 2001-02, onde faria história nessa mesma época, levando a equipa de Matosinhos a uma improvável final da Taça de Portugal, acabando derrotado precisamente pelos “leões”, por 1-0. Derrotado, mas notado. E a sua notoriedade voltaria a subir quando, em 2003-04, promoveria o regresso do V. Setúbal à Liga. O Belenenses seria o seu lar nas duas épocas seguintes, antes de ser chamado para aquele que foi o seu maior teste antes de Alvalade: o Sp. Braga, em 2006-07, onde acabaria por fracassar e ser demitido ao final de nove partidas oficiais. Era necessário recuperar a sua imagem e o V. Setúbal voltou a ser um porto de abrigo feliz, levando os sadinos ao sexto lugar do campeonato e à conquista da primeira edição da Taça da Liga, frente ao Sporting. A cotação de Carvalhal voltava a estar em alta, mas, como em outras alturas, não duraria muito. Uma aventura mal sucedida nos gregos do Asteras Tripolis e um desastre chamado Marítimo no seu regresso a Portugal deixaram-no sem clube até surgirem os “leões”.
Jorge Jesus
Futebolista com um percurso discreto nos relvados, Jorge Jesus cedo percebeu que o seu futuro (bem mais exuberante de fato e gravata, por sinal) passaria pelo banco. Apostou gradualmente na formação (o estágio com Johan Cruyff no Barcelona seria um dos pontos altos), aliou o conhecimento teórico à prática e, aos 35 anos, já orientava o Amora. Corria o ano de 1989 e só em 1993 o técnico mudaria de ares, já depois de se ter sagrado campeão nacional da 3.ª divisão. Em Felgueiras (1993-98) e em Moreira de Cónegos (2004-05), viveu alguns dos momentos mais difíceis da carreira, com descidas de escalão. Mas os ventos de bonança voltariam a soprar no Restelo (2006-08), onde um treinador mais maduro – e incisivo, intuitivo, autoconfiante q.b. – conduziria o Belenenses ao 5.º lugar na Liga (com passaporte para a Europa) e à final da Taça de Portugal. Para trás, tinham ficado passagens fugazes pelo E. Amadora, V. Setúbal, V. Guimarães e U. Leiria. Pela frente, teria ainda o capítulo Sp. Braga, no qual escreveu algumas das páginas mais brilhantes da carreira – a vitória na Taça Intertoto, o futebol de classe que estendeu pela Europa e pelos estádios nacionais –, afirmando-se definitivamente como um dos técnicos mais capazes do universo nacional. O Benfica percebeu-o mais depressa que a concorrência e ganhou o braço-de-ferro com António Salvador quando colocou em cima da mesa um cheque de 700 mil euros, suficiente para garantir um dos “reforços” mais decisivos da temporada.
PONTOS FORTES
Carlos Carvalhal
– Formação académica sólida.
– Estagiou com alguns dos melhores treinadores portugueses em alguns dos melhores clubes do mundo: José Mourinho (Chelsea) e Carlos Queiroz (no Real Madrid).
– Exigente, mas, ao mesmo tempo, compreensivo com os seus jogadores, com quem tem uma relação próxima.
– Trabalha as vertentes táctica, técnica e física no mesmo treino.
Jorge Jesus
– Know-how técnico e táctico.
– Conhecimento profundo do futebol português.
– Atitude de exigência permanente.
– Autoconfiança extrema.
– Capacidade de motivação dos jogadores.
– Leitura de jogo.
PONTOS FRACOS
Carlos Carvalhal
– Chegou ao Sporting como uma escolha secundária e ainda não cativou os adeptos.
– Poucos tempo à frente da equipa para operar grandes alterações ou inovações.
– Mau desempenho nos melhores clubes por onde passou.
Jorge Jesus
– Dificuldades de comunicação.
– Cultura de provocação.
– Ausência de um grande título.
FRASES MARCANTES
Carlos Carvalhal
“Estou preparadíssimo para treinar um ‘grande’ e com capacidade para liderar um projecto desde a sua formação ao futebol profissional”, Fevereiro de 2008.
“Se fosse estrangeiro estava num grande”, Maio de 2008.
“É um Benfica com marca, com processos idênticos aos do Sp. Braga do ano passado, mas melhores intérpretes. É uma equipa forte nas transições defensivas e ofensivas, interpreta bem todos os momentos do jogo. É difícil de contrariar”, Agosto de 2009.
“Como treinador, nunca fiz marcação individual a ninguém”, Agosto de 2009.
Jorge Jesus
“O fair-play é uma treta”.
“Com essa equipa dava-lhe três de avanço, mudava aos cinco e acabava aos 10”, afirmou em Agosto de 2007, dirigindo-se a Bernd Schuster, após uma derrota do Belenenses por 1-0 com o Real Madrid, no Troféu Teresa Herrera.
“Não sei o que é jogar para empatar. Já tentei entender, mas não consigo”, Dezembro de 2007.
“Comigo, o Benfica vai ter de passar a jogar pelo menos o dobro. E o dobro se calhar é pouco”, Junho de 2009.
PALMARÉS COMO JOGADOR
Carlos Carvalhal
Talentoso defesa central, representou sete clubes diferentes, entre os quais o FC Porto, em 1988-89. Começou a carreira no Sporting de Braga, em 1983, acabando por ficar intimamente ligado ao clube minhoto, que representou durante seis temporadas.
Jorge Jesus
Médio discreto, vestiu doze camisolas diferentes ao longo de 16 temporadas como atleta profissional, tendo representado o Sporting em 1975/76.
ESQUEMA MAIS UTILIZADO
Carlos Carvalhal
4-2-3-1 Foi este o esquema que Carlos Carvalhal começou por utilizar na partida com os Pescadores da Costa de Caparica, para a Taça de Portugal. João Moutinho baixa no terreno e posiciona-se ao lado de Miguel Veloso, abrindo dois jogadores nas alas e optando por um único avançado.
Jorge Jesus
4-1-3-2 Uma linha de quatro defesas, um trinco clássico, dois alas capazes de rasgar o flanco e, ao mesmo tempo, fechar o corredor, um número 10 e dois avançados. Eis o esquema favorito de Jorge Jesus e aquele que utiliza actualmente no Benfica, onde dá maior liberdade de acção a Saviola do que a Cardozo.